A vida ou, talvez… A angústia de Daniel Cook

Etiquetas

, , , , , , ,

Ah, um momento… o momento. A paz interior e exterior. O encontro com o paraíso. O instante maior de felicidade, como é bom ser feliz; pena que isso dure tão pouco. Ah, eu conheci a felicidade, como conheci… Segundos, tudo bem, apenas segundos, ou talvez pouco mais de um minuto, não sei. Mas segundos que eu guardarei para todo o sempre.

Você, linda, perfeita. Bela como sempre. Nome sugestivo, não?

Isabella!

Eu, o mesmo idiota de sempre. O adolescente que chora sem motivo – ninguém sabe disso, mas presumo que isso logo mudará, muitos ficarão sabendo; eu, porém, não ligo, não mais ligarei!

Um momento… felicidade intensa. Eu e você, na minha casa, a sós. Brincando e rindo pra valer.

Um quarto, uma cama, um cobertor, hormônios, a curiosidade, o medo, um pensamento que vai e vem: “Daniel, sua mãe chegou”. Tudo excitante. Nada constrangedor.

Um beijo… o beijo. Devastador, delirante. Totalmente excitante. Mas nada mais nada menos que um beijo. Não ultrapassou nenhuma fronteira. Nada picante. Quer dizer, apenas os pensamentos. Eu e você, no quarto, fechados. Pena que não durou muito tempo.

Somos apenas crianças crescidas… crianças que provaram o doce sabor da paixão.

Era para ser eterno, deveria ser eterno… aquilo.

Por que acabou? Não poderia acabar. Eu estava feliz. Você, acredito, também estava.

De repente tudo despencou… tudo caiu. Nada vai ser igual àquilo. Nada.

Não foi o meu primeiro beijo, mas foi o único beijo deveras importante. É o único que eu lembrarei. Mesmo quando morto, lembrarei… aliás, morto já estou.

O garoto estranho… estranho, anti-social, mal-humorado!, este com certeza era o pensamento de muitas garotas do colégio. Mas você não, você me dava atenção, me compreendia. Você era especial.

Mas você logo descobriu que eu não era “suficiente”. Como poderia? Você tinha seu mundo… seu mundo colorido, e não podia ficar vivendo na minha obscuridade imutável.

Eu, o menino mais anormal que já se pode ter avistado, com certeza, ou um garoto comum; se por fora eu parecia ser uma barreira impenetrável, uma pedra gélida e áspera, por dentro eu prendia um bilhão de sentimentos gritantes, desesperados para escapar da tortura constante a que minha alma – minha mente – vinha sendo submetida.

Não parecia, claro que não; eu era um menino normal, apenas meramente “diferente”, um pouco mais distante. Quem suspeitaria do pobre e inócuo Daniel? Quem?

“Daniel, você é especial. Você sabe disso!”, uma voz ecoou em minha mente. “Não, você é odiado, odiado por todos aqueles que lembram de você, e ignorado e desprezado pela grande maioria!”, outra voz, mais profunda, toma conta, por completo, da minha mente.

Quem sente a minha falta? Ninguém! Minha mãe? Ah, pobre coitada. Ela é muito ocupada, muito. Ela tem os problemas dela. Não tem tempo a perder com o rebelde e egoísta Daniel.

Eu também tenho os meus problemas, as minhas angústias, e vou resolver tudo de uma só vez. Acabando com tudo!

“Não, Daniel, você não pode fazer isso”, uma voz, muito fraca, me dizia para desistir. “Isso é o certo a fazer. Continue!”, aos brados, algo me dizia que aquilo não era errado, pelo contrário, era a decisão mais sábia.

E é isso que eu vou fazer. Prosseguir. Adiantando o meu ciclo.

Colocar um fim na angústia, pensei. Estou quase .

Minha vida ia de mal a pior quando você apareceu. De começo, eu pensei ser a solução para os meus problemas. A cura. Eu pensei que você me ouviria, me daria uma mínima atenção verdadeira. Mas não. Era tudo falsidade. Você é como todos os outros, talvez até pior.

Não pense que você, Isabella, é a causa principal. Não. Você é o fim. Ou, como dizem: a gota d’água.

O último pingo!

Não era intenção minha acabar dessa forma. Quando se está nessa situação, a última coisa que você quer é ajuda.

A solidão me atrai. A escuridão me consola. O sol ofusca meus desejos sombrios.

Eu tentei de todas as formas, quando foi possível, desistir, voltar atrás. É complicado. Eu não queria ajuda, mas queria que alguém me compreendesse.

As pessoas poderiam me ajudar involuntariamente, mesmo eu não querendo ajuda alguma. Ajudariam se parassem de me insultar, de me ignorar, de rir. Ajudariam… Mesmo sem querer, ajudariam.

Essa foi a minha derradeira esperança. Pena que ela também morreu.

Nenhuma voz, nenhum eco… nada mais me passava uma mensagem positiva. A voz não-pessimista que existia dentro de mim, se não morreu, calou-se. Calou-se para sempre.

Eu sinto que eu estou próximo, talvez eu até o faça hoje, mas não sei se já possuo coragem o suficiente. Ainda não planejei. Não há necessidade. Quando chegar a hora, eu improviso.

Sim, é hoje! Mundo, eu te abandono. Se autodestrua sem a minha pessoa.

Sinto o meu coração pular… estou alegre. Há muito eu não me sentia assim… Feliz!

Seguro, agora, na mão esquerda, uma caneta azul simples, e, na direita, uma grande faca bem perigosa. É utilizada para cortar carne, eu acho. Deverá servir, então.

Lentamente, muito lentamente, eu fiz um profundo corte em meu pulso direito  – agora, a faca encontra-se em minha mão
esquerda, é claro. Confesso que doeu um pouco mais do que eu imaginava. Tudo bem. Eu estou perdendo muito sangue, muito rápido. Sinto que estou mais fraco… O sangue jorra.

Enfim, a parte mais complicada. Chegou a hora de cortar o pulso esquerdo. O pulso que se liga à mão com a qual escrevo esta carta. A despedida. Como sou dramático.

Confesso que este corte está doendo mais que o primeiro. Uma sensação de mal-estar invade, em fragmentos, o meu corpo inteiro. Parece que o meu coração está sendo sufocado. É com dificuldade que eu escrevo essas últimas palavras. Para escrever, preciso forçar a mão, e isso dói.

O fim está próximo!

Estou me esforçando para não desmaiar. A força que eu tinha me abandonou.

Mas vou persistir. Vou escrever até o último suspiro. Espero poder terminar esta carta.

A folha que um dia foi branca, agora está manchada por um vermelho forte.

Sinto, pela primeira vez, o meu coração falhar. Por milagre ou por ironia do destino, eu permaneço consciente.

Poderia ter sido diferente. Poderia ter sido alegre. Poderia ter existido uma vida.

É com prazer que me despeço do mundo.

Usarei os meus últimos segundos para deixar essa carta em baixo de um livro com capa de couro, que ficará em cima da minha escrivaninha (isso não faz sentido, pois, quando alguém chegar a ler esta carta, eu já estarei morto, é óbvio, mas o objetivo está centrado no livro).

O livro com capa de couro marrom. Cheio de pó. Um livro que, em todas as páginas, não se pode encontrar nenhuma palavra. A única coisa existente no livro, além das manchas amareladas, é um ponto, impresso na última página, exatamente no finalzinho. Assim foi a minha vida: um pontinho inerte no meio da escuridão… Um vazio… Um nada.

Adeus.

Daniel Cook, uma alma errante que nunca deveria ter vindo ao mundo.

Anúncios

Tortura de amar.

Etiquetas

, , , , ,

A mais bela
flor.
Que encanta com
seu esplendor
Me tenta a
suspirar,
Com a mais
forte dor!
 
Eu, com as mãos
machucadas,
Já calejadas,
Nessa triste jornada.
Implorando e
chorando.
E tu, minha
flor,
Só quer me
ignorar.
Se fraco lhe
sou.
 
Agarrando em
teus espinhos,
Com medo e
sozinho,
Tremendo e
chorando.
Entro em
desatino
Sou um perdido
Só quero morrer!
 
Quase nem mais
suporto
Essa dor em meu
peito,
Que ostenta e
esconde
Um triste
destino.
Oh, fardo
delírio
Que é te amar!
 
Minha boca clama
por um beijo teu.
Tu, minha tão
bela flor.
Rosa espinhenta,
Por que me
rejeita?
 
Noite sombria,
Pesadelo
infindável.
Não mais sinto
sua tortura,
Anestesiado
estou!
Nessa batalha
negra,
Fico a lutar só
Mesmo assim,
rosa espinhenta,
Quero te amar!
 
Mas o sol
aparece,
Ilumina minha
prece,
E as estrelas
já cansadas,
Desejam dormir.
Eis que reflito.
Não vou
desistir!
 
Minha tão bela flor,
 Sensível e pura.
Cria agruras em
teu coração,
Mas sei que me
ama.
Oh, minha tão bela
Rosa espinhenta
Por ti sofro
amores
E não vou
desistir!